Deixa eu te contar uma história. A evolução das insulinas até os dias de hoje. Eu vivi ela no meu corpo. Vamos falar sobre a evolução da insulina.
Quem começou a tratar o diabetes nos anos 90 sabe exatamente do que eu estou falando: as insulinas de antigamente eram turvas, leitosas e vinham de animais (boi e porco).
Elas tinham um cheiro forte, muito característico — quem usou naquela época guarda esse cheiro na memória até hoje. E a aplicação vinha acompanhada de rituais e sacrifícios: causavam alergias, deixavam caroços e coceiras na pele. Antes de aplicar, a gente tinha que girar o frasco delicadamente entre as mãos, bem devagar, torcendo para misturar sem formar bolhas e nunca chacoalhar.
Eu misturava duas insulinas para não precisar levar duas picadas (quando tive essa informação da equipe médica, fiquei super feliz!): NPH+regular na mesma seringa, uma picadinha só. Existia até a 70 por 30 (70% NPH e 30% regular) já pronta, mas eu nunca usei porque era cara.
Ah, e o sofrimento para manter gelado? A insulina sempre exigiu refrigeração, mas e quem não tinha geladeira em casa? (Eu tinha) Na minha época, a recomendação de sobrevivência era guardar o frasco bem coladinho ao lado do filtro de água de barro, aproveitando o fresquinho, ou correr para pedir o favor de guardar na geladeira do vizinho ou de um parente. Olha o sufoco! Hoje a insulina em uso pode ficar fora da geladeira, em locais frescos e protegidos do calor, por até 28 dias.
A minha linha do tempo real com a insulina
Quando olho para trás e vejo os meus 35 anos de diagnóstico, percebo que caminhei por eras inteiras da medicina:
1. 1991 (mista de boi e porco): insulina animal mista, turva, com cheiro forte e que causava alergia em muitas pessoas (eu não tive alergia).
2. Anos 90 - não lembro quando(só porco NPH): a fase da NPH suína, de ação intermediária. Rotina fixa e a obrigação de girar o frasco.
3. Fim dos anos 90 / início de 2000 (humana recombinante cristalina): feita por DNA em laboratório, era transparente. Finalmente não precisava girar! Mas a minha mão ia sozinha por puro costume de anos.
4. 2004 (a chegada da rápida): conheci a insulina regular, a primeira rápida disponível. Acredita? Fiquei 13 anos só na NPH para só depois conhecer a rápida e poder fazer correções!
5. 2011 / 2012 (análogos - Lantus + Humalog): mais flexibilidade e liberdade. (lembrando que a Lantus e a Basaglar não podem ser misturadas com as rápidas na mesma seringa porque o pH é diferente; se misturar, elas estragam e perdem o efeito).
6. 2015 (bomba de insulina Medtronic modelo 722 ): o salto para o sistema automático de infusão contínua só usando insulina ultra rápida (Humalog ou Novorapid) junto com o sensor Enlite.
7. Hoje (bomba e respiros): sigo firme com a minha bomba Medtronic 780G. Nos dias em que falta insumo dela, recorro ao plano B: Basaglar + NovoRapid.
8. O futuro (insulina semanal): já aprovada pela Anvisa, a chegada de insulinas semanais (como a Awiqli e a IcoSema) promete transformar o futuro, reduzindo de 365 para apenas 52 picadas basais por ano!
Do filtro de barro ao futuro
Do filtro de barro na cozinha ao sistema automatizado na minha cintura. Das insulinas de boi e porco até a promessa da aplicação semanal.
Eu sobrevivi a essa travessia. E quando olho para a minha rotina hoje, lembro de cada picadinha, de cada frasco misturado com cuidado e de cada mãe que lutou para manter a insulina fria sem ter geladeira. A ciência andou léguas, e nós andamos junto com ela.
Me conta aqui nos comentários: você também continuava girando a insulina transparente por costume de quem usava a antiga? Você lembra daquele cheiro forte da NPH de antigamente? Deixa seu recado aqui embaixo, quero muito saber a sua história!

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