Como voltei para o ateliê com 3 meses de transplante
Logo mais estarei completando 5 meses de transplante. O dia 16 de maio de 2026 foi, sem dúvida, o dia do meu renascimento. Mas hoje quero contar para vocês como foi quando dei o passo de voltar para o meu cantinho mais amado: o ateliê.
Isso aconteceu quando completei 3 meses de transplante. Eu estava morrendo de saudade da máquina de costura, com mil ideias fervilhando na cabeça e uma vontade louca de fazer tudo ao mesmo tempo.
Minha equipe em Belo Horizonte foi muito clara: "Cris, você pode voltar, mas sem forçar. No máximo 2 horas por dia na máquina. E tem que ir levantando e caminhando no meio, a cada 30 minutos."
O cuidado com a cicatriz e o risco de hérnia
Meu maior medo era o desenvolvimento de uma hérnia incisional — que é quando a parede abdominal, ainda em processo de cicatrização, enfraquece e cede por dentro. Minha médica me explicou que, no meu caso, o risco é um pouco maior porque os medicamentos imunossupressores (que tomo para evitar a rejeição do rim) deixam o processo de cicatrização da pele e dos tecidos mais lento.
Por isso, a regra do jogo foi estipulada com muita disciplina:
● Limite de tempo: apenas 2 horas de máquina por dia, com alarme configurado para levantar e caminhar.
● Postura: cadeira com encosto adequado, coluna reta e pés bem apoiados no chão.
● Zero esforço: nada de carregar peso acima de 2 kg, nada de arrastar sacos pesados de tecido e nada de prender a respiração na hora de cortar tecidos mais grossos. Aprendi que pedir ajuda não é fraqueza, é autocuidado.
A salvação chamada crochê
E o que me salvou nos dias em que a vontade de produzir era maior do que o tempo permitido na máquina? O crochê!
A equipe liberou porque o crochê é uma atividade que não força a cirurgia. Fico sentada confortavelmente, sem fazer nenhuma pressão ou força na barriga. Quando as minhas 2 horas de máquina acabavam, eu continuava trabalhando nas minhas peças de crochê. Assim, o ateliê continuou vivo e ativo, mas com total segurança para a minha cirurgia.
Hoje, quase chegando aos 5 meses de transplante, sigo firme nessa rotina adaptada: continuo respeitando as 2 horas diárias de máquina com pausas para caminhar, e complementando o dia com o crochê quando sinto vontade. Cada peça são feitas respeitando os meus limites e com muito amor.
📖 Diário do recomeço
Como estou me sentindo hoje: feliz por ter ter a paciência de respeitar as 2 horinhas no meu ateliê. Se eu forçar o ritmo, posso futuramente estar lidando com uma hérnia.
Uma pequena vitória do dia: conseguir costurar sem sentir dor na cicatriz, fazendo minhas pausas para caminhar, e ainda produzir no crochê sem forçar o corpo.
Mensagem para o coração: se você passou por um transplante e ama criar, saiba que é totalmente possível voltar. Mas vá no seu tempo: depois de 3 meses, com limite de horas, levantando para caminhar e usando alternativas como o crochê, bordado, ponto cruz, que não forçam a barriga. Meu rim vale muito mais do que qualquer encomenda apressada.

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