Se você tem diabetes hoje e reclama do preço da fita, senta aqui que eu vou te contar como era antes.
Nos anos 90, quando fui diagnosticada em 1991, a gente não tinha sensor, não tinha glicosímetro em casa. O que tinha era muita criatividade para economizar.
Tudo começou antes, com o teste mais antigo que eu cheguei a ver. O Reagente de Benedict. Ganhei da Associação de Diabéticos uma garrafa grande, do tamanho de garrafa de refrigerante, com um líquido azul dentro. Pegava um pouco de urina, colocava num tubo de ensaio com aquele líquido azul e levava para a boca do fogão. Ou acendia uma vela. Esquentava até aquecer, não lembro se precisa ferver.
A cor que ficava dizia tudo:
Azul = negativo
Verde = pouco açúcar(glicose na urina)
Vermelho tijolo = muito açúcar (muita glicose na urina)
Só que, isso não era a glicemia da hora. Era a glicemia de horas atrás, que já tinha saído na urina e ficou acumulada na bexiga. Era totalmente atrasado, mas era o que tinha na época. Era impreciso, demorado, precisava de fogão. Mas salvava.
Depois veio a nossa famosa Glicofita. Quem viveu nos anos 80 e 90 lembra. Não era aparelho. Era um potinho com a fita de papel. A fita era verde. O nome oficial era Glicofita, reagente para urina.
Como funcionava? A gente cortava um pedacinho de uns 3 cm. Eu, para economizar, cortava a fita, ela tinha largura de uma fita de glicemia, cortava bem pequenininhos com a tesoura. A embalagem parecia de fio dental, era tão cara! Artigo de luxo mesmo. Molhava na urina, esperava 1 a 2 minutos e comparava a cor: se ficasse amarela, estava baixa ou normal. Se ficasse verde, e quanto mais escuro o verde, mais alto estava. Acima de 180-200 mg/dL já aparecia na urina.
Por que paramos de usar? Porque a urina só mostra o que já passou. Não avisa hipoglicemia na hora, não mostra o valor exato do sangue.
Eu só fui ter meu primeiro aparelho de verdade em 2005. Meu Accu-Chek Active azul. Moderno para a época, comprei com muito sacrifício e tenho até hoje guardado. Eu vi na internet depois fotos de aparelhos de glicemia jurássicos, vidros antigos de insulina, seringas de vidro. Lindo para museu, eu fiquei encantada!
Eu lembro de uma história que me marcou: uma moça que os pais deixaram de comprar um carro para comprar o aparelho dela. Ela tinha condições. Eu não. Essa frase dói, mas é verdade,era a realidade de muita gente com diabetes no Brasil sem dinheiro.
Uma gotinha de sangue no dedo e em minutos o resultado na hora. Para mim, que vinha do fogão e da tesourinha, foi uma revolução.
Tudo isso começou com um sintoma que minha mãe notou: formiga no vaso sanitário. O xixi doce chama formiga. Junto com esse sintoma, uma sede de beber litros e litros de água, fome que não passava e emagrecimento rápido. Foi assim que fui parar internada, comecei tomar insulina e recebi do médico por escrito, uma a dieta pronta, com letras verde e ele só colocou as quantidades, dieta padrão, super restrita, que me perseguiu por anos, dando aval para meus familiares controlar o que eu comia com julgamentos e punições, escondendo comida de mim, me fazendo ter compulsão alimentar.
Da garrafa azul na boca do fogão, para a Glicofita verde cortada, para o meu Accu-Chek Active azul de 2005.
Essa história não está em livro nenhum da internet contada em primeira pessoa. Está aqui!
Me conta nos comentários: você chegou a usar o agente de Benedict? Cortou Glicofita também para economizar? Sua mãe, vó ou algum familiar seu descobriu pelas formigas no vaso?
Um abraço azul,
Cris
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