Oi, meu nome é Ana Luiza e sou filha da Cristiane.
Fui diagnosticada com diabetes em 17 de março de 2018, com apenas 11 anos. Mamãe falou na época que era pouco mais nova do que eu quando descobriu a dela em 1991 - aos 10 anos.
Desde pequena, lembro dela tomando insulina e medindo glicose. Quando ela passou a usar a bomba de insulina em 2015, foi só alegria. Ela parou de ter hipoglicemias severas. Lembro no dia de ela ficar toda feliz quando a bomba chegou e eu pequena, 8 anos, falei brincando que o que tinha chegado pelo correio era uma bomba de verdade. (Risos).
Eu tinha muito medo quando ela dava hipo. Porque ela desmaiava e eu e minhas irmãs éramos pequenas. Lembro de uma dessas ocasiões, em que nós três estávamos brincando quando a encontramos desmaiada no sofá. Pegamos o celular dela, um rosa que abria, para ligar para meu pai, mas não sabíamos o número. Uma memória que me ficou marcada foi olhar para a foto de meu pai no telefone e chorar desejando que ele chegasse em casa, pois, na época, ele trabalhava na rua arrumando aparelhos e antenas de clientes e demorava para voltar para casa. Então, nós três tivemos de dar um jeito.
A gente sabia que ela comia açúcar com pão de sal e margarina para melhorar a glicemia. Fomos olhar na geladeira. Lembro que a margarina tinha até acabado. Demos açúcar, fazendo a maior sujeira porque a gente não sabia direito o que tava fazendo. Mamãe explicou, depois de todo o terror, que ao dar açúcar para uma pessoa desmaiada, precisa massagear as bochechas para derreter e a pessoa conseguir engolir.
Vizinhos e pessoas na rua nos escutaram chorando dentro de casa e bateram no portão. Eu peguei uma cadeira na cozinha para abrir e um homem e uma vizinha entraram.
— Moça, moça. — Ela tentou mexer com minha mãe e a gente falou que ela tinha desmaiado.
Algum deles perguntou se a gente sabia o telefone de nosso pai e minha irmã mais velha lembrou que os números ficavam anotados num papelzinho pregado na geladeira. Ligamos para minha avó, que a levou para o hospital de carro. Lembro-me do alívio ao ver o carro no portão e meu pai de bicicleta do lado, pois minha avó, que é mãe dele, ligara para ele vir para casa.
Desde pequena, eu adorava comer. Dois pães doces, leite com Mucilon. O problema era que eu estava ganhando muito peso e acabou por aparecer uma mancha no meu pescoço, que, indo para o endocrinologista infantil, ele deu diagnóstico de pré-diabetes. A orientação foi cortar todo o açúcar e introduzir fibras, mas na época, a dieta padrão era horrível. Não tinha essa coisa de adaptação para o paciente. O pão integral era seco e tinha um gosto ruim, assim como o leite com aveia, que meu eu pequena tinha ânsia de vômito só com o cheiro. Mais velha agora, eu experimentei tomar leite com aveia e até que desceu. Com adoçante, claro. Mamãe falou que adoçava com açúcar lá quando eu era pequena, mas, pelas minhas memórias, não sentia diferença. Ainda sentia o gosto horrível da aveia.
Eu perdi peso e, com o passar dos anos, acabamos relaxando na dieta. Tomava dois remédios que ainda tomo até hoje: o Puran 50 mg, pois desenvolvi hipotireoidismo e o Glifage XR 500, devido a resistência à insulina.
À partir de janeiro de 2018, pelo que me recordo, passei a sentir muita sede. Mamãe até reparou que a água do galão tava caindo mais rápido. E, finalmente, em 17 de março, desconfiada, ela mediu minha glicemia: 444. Ficou desesperada, me falou para tomar banho para irmos ao hospital, o pânico me assolara também. Achava que meus sonhos estavam todos destruídos. Achava que minha vida tinha acabado, tamanho era o pânico.
No hospital, fiquei no soro, hidratando o tempo todo. Os médicos tratavam como se eu fosse tipo 2, recusando-se a me dar insulina. Mamãe ligou para o endocrinologista dela, que disse de imediato que era para aplicar. Saí do hospital com a glicemia em 333 e ainda lembro que, naquele dia, ainda dentro do hospital, uma menininha, de uns três anos ou menos, tomou injeção no bumbum. O problema dela era outro, não era diabetes não. Ela chorou e a mãe conseguiu acalmá-la e a menina dormiu. Comentei com a mãe que eu também tinha pavor de agulhas quando pequena. Que mais de um médico tinha de me segurar para tirar sangue. Três médicos para segurar uma criança, tamanha era minha força. Me gabei. Mas a lembrança não era boa. Para mim, a sensação era de estarem dilacerando minha pele, sem brincadeira, porque, às vezes, minha veia era difícil de achar e o infeliz do médico ficava movimentando a agulha dentro do meu braço enquanto eu gritava de dor. Até hoje minha veia é um pouco difícil, por isso eu já alerto as enfermeiras de sempre usarem as agulhas mais finas para tirar meu sangue.
Agora, diante do pós diagnóstico, à partir daquele dia, foi como se uma chave virasse na minha cabeça. Não tive dificuldades em me adaptar à rotina de tomar insulina em toda refeição - mamãe confessou que essa parte a preocupara devido o meu "agradável" histórico. E como eu estava em meu primeiro ano, na fase que chamam de Lua de Mel, a esperança para a cura para mim era palpável.
Não veio, infelizmente. Eu e minha mãe frequentamos o mesmo endocrinologista e nas primeiras consultas, eu insistia na ideia da cura, mas ele explicava que eu deveria focar mesmo era no tratamento. Não perdi a esperança. Já fazem oito anos, mas eu continuo firme. Odeio ter diabetes. Sei que existem pessoas com condições piores, como câncer, mas isso não inibe meu desgosto. É como um sistema com uma falha. E já houveram momentos de eu querer apertar restart, no lugar de continuar. Meu único consolo é a Ciência. Desde que haja verba para pesquisas, um dia eles vão conseguir desenvolver uma cura viável para todo mundo.
E esse é meu relato. Abraços.

Comentários
Postar um comentário