Quem olha de fora — ou vê a gente celebrando as pequenas vitórias e as comemorações da vida — às vezes esquece que o pós-transplante renal e a convivência com uma doença crônica também têm seus momentos de perrengue pesado. E está tudo bem falar sobre isso, porque a vida real não tem filtro.
Há poucos dias, passei por um daqueles episódios que testam a nossa paciência e o nosso limite. Quem teve a paratireoide retirada (como eu) sabe que a reposição de cálcio com o carbonato de cálcio é necessária, mas ela vem com um efeito colateral clássico e impiedoso: o intestino preso. Junta isso aos imunossupressores que deixam o trânsito intestinal mais lento, e temos a receita perfeita para o desastre.
O alerta vermelho: quando o problema fica sério
Começou de manhã com um incômodo, aquela vontade forte de evacuar e nada de sair. A barriga foi estufando, a cólica apertou, o enjoo deu as caras e, para piorar, comecei a ter dificuldade para fazer xixi.
Para quem tem um rim novo, qualquer alteração na urina é alerta vermelho. A bola de fezes endurecida (um fecaloma bem na saída) estava literalmente comprimindo a minha bexiga e o canal. Ficar sofrendo em casa com dor e risco para o enxerto não é opção. Partimos para o pronto-socorro.
A sorte de encontrar empatia no caminho
Hospital público ou convênio a gente sabe como é: a recepção, a triagem, a espera pela médica, a burocracia da enfermagem. Mas, às vezes, a vida nos dá um abraço: por sorte, a médica que me atendeu era a mesma de um episódio anterior e me reconheceu na hora.
Relatei ser transplantada, expliquei o que estava acontecendo e qual era o procedimento que funcionava. Tomei dipirona na veia para aliviar as cólicas, fizemos um raio-x e partimos para o clister. Dito e feito: alívio imediato.
A lição de casa: prevenção e cuidado redobrado
Dessa vez, saí do hospital com uma estratégia preventiva bem clara que decidi compartilhar com vocês:
1. O PEG diário:a médica orientou o uso de laxante osmótico (como o PEG / Muvinlax) para tomar todos os dias. A ideia é manter as fezes sempre amolecidas, impedindo que o carbonato de cálcio crie aquele "tijolo" na saída de novo. Prevenção é tudo! A equipe de transplante já tinha liberado o PEG, eu que não tomava corretamente, é para tomar todos os dias.
2. Cuidado com receitas "milagrosas": ela também sugeriu um remédio homeopático muito bom, mas teve o cuidado prudente de me pedir: "Consulte sua equipe de transplante antes". E é exatamente isso que farei. Nós, que usamos imunossupressores, não podemos tomar nada — nem natural ou homeopático — sem o aval do nefrologista. Cada remédio interage de um jeito no nosso organismo.
No dia seguinte, depois da tempestade, a boca ainda estava um pouco seca pelo susto e pela desidratação leve, mas a glicemia seguiu firme e o corpo começou a recuperar a paz.
Passar por isso assusta, mas nos lembra da importância de escutar o próprio corpo, não ter vergonha de pedir ajuda médica e manter o diálogo aberto com a nossa rede de apoio e equipe de saúde.
📖 Diário do recomeço
Como estou me sentindo hoje: aliviada por ter resolvido a situação logo cedo, cuidando da hidratação e feliz por manter meu corpo seguro e bem assistido.
Uma pequena vitória do dia: transformar mais um susto da nossa rotina em um alerta útil de utilidade pública para ajudar a cuidar da saúde de outras pessoas que passam pelo mesmo perrengue.
Mensagem para o coração: cuidar da saúde é um exercício diário de paciência, escuta atenta ao próprio corpo e organização. Imprevistos acontecem, e o mais importante é saber agir com calma, buscar ajuda médica sem vergonha e nunca caminhar sozinhas!
Me conta aqui nos comentários: você também sofre com os efeitos colaterais dos remédios no intestino por aí? Como lida com esses perrengues?
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