Da criança fofinha ao pós-transplante: a luta com o peso, gastroparesia e a verdade sobre a caneta emagrecedora.
Se tem um assunto que mexe com a nossa autoestima e com a nossa saúde, é a balança. Na infância, eu era aquela criança "fofinha", não era gorda, era fofinha, sabe? Aos 10 anos de idade, quando veio o diagnóstico do diabetes tipo 1, perdi muito peso de uma vez e fiquei magrinha por anos.
As coisas começaram a mudar depois da minha última gestação, em 2007. Vieram as injeções anticoncepcionais, o diagnóstico de hipotireoidismo e, em 2021, a entrada na diálise peritoneal. Para quem não sabe, a solução utilizada na diálise peritoneal contém glicose, o que gera um aporte diário de calorias absorvidas pelo organismo, favorecendo o ganho de peso e a retenção de líquidos.
Com o transplante, no início perdi peso. Mas bastou passar o terceiro mês para recuperar tudo o que tinha perdido. O retorno do apetite, somado ao uso de corticoides e imunossupressores, torna o ganho de peso um desafio muito comum e documentado na rotina pós-transplante.
Para completar o quadro metabólico, meu último exame mostrou os triglicerídes alto. Na minha última consulta, o endocrinologista sugeriu o uso da "caneta emagrecedora" (da família dos análogos de GLP-1, como a semaglutida).
Mas, antes de tomar qualquer decisão, decidi parar e estudar a fundo com base em informações científicas seguras. Afinal, quem tem um rim transplantado e outras condições de saúde não pode usar nenhuma medicação sem cautela!
O que diz a ciência sobre o uso da caneta nesses casos?
1. O desafio da gastroparesia
Eu tenho gastroparesia, que é o retardamento natural do esvaziamento do estômago (uma complicação comum em quem tem diabetes há muitos anos). Como a Semaglutida funciona justamente diminuindo a velocidade com que o estômago esvazia para dar saciedade, seu uso exige cuidado dobrado.
Estudos clínicos mostram que é possível utilizar a medicação em pacientes com gastroparesia leve a moderada, desde que a titulação seja muito lenta ou seja, começando com uma dose bem pequena e aumentando gradativamente para o estômago ir se adaptando sem causar náuseas ou vômitos.
2. O benefício nos triglicerídes
Por outro lado, do ponto de vista metabólico, as diretrizes endocrinológicas apontam que os análogos de GLP-1 (Semaglutida) trazem um excelente benefício na redução dos triglicerídeos e no controle do perfil lipídico, o que protege a saúde cardiovascular.
Os passos que estou seguindo antes de decidir:
1. Consulta com a equipe de transplante: este é o passo mais importante. Preciso da aprovação dos médicos que cuidam do meu rim para garantir que o remédio não afetará a absorção dos meus imunossupressores nem a função renal.
2. Adaptação cautelosa: se a equipe liberar, o plano é iniciar com a menor dose possível, monitorando de perto como meu estômago vai reagir devido à gastroparesia.
3. Avaliação financeira:essas medicações possuem um custo elevado. Embora existam discussões e avaliações técnicas sobre a incorporação de análogos da caneta emagrecedora no SUS pelo Ministério da Saúde, o processo de análise governamental (pela Conitec) segue critérios rigorosos e tempo próprio. Por isso, não dá para contar com a disponibilidade imediata no posto.
Cuidar do peso e dos triglicerídes após o transplante vai muito além da estética: é saúde para que o nosso novo rim e o nosso coração durem muitos e muitos anos! Assim que eu alinhar os próximos passos com a equipe do transplante, venho contar para vocês o que decidimos.
📖 Diário do recomeço
Como estou me sentindo hoje: refletindo sobre as transformações do meu corpo e buscando caminhos com maturidade, responsabilidade e embasamento médico.
Uma pequena vitória do dia: aprender a estudar sobre a minha própria saúde e não ter medo de fazer perguntas claras aos meus médicos.
Mensagem para o coração: o nosso corpo já passou por tantas batalhas! Cuidar dele com informação segura e carinho é a melhor forma de honrar a vida.

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