Pular para o conteúdo principal

Por que as associações de diabéticos precisam de ajuda? Minha experiência de 1991 até hoje

Quando a gente recebe o diagnóstico de uma condição crônica, a primeira sensação quase sempre é a de estar completamente sozinha. Convivendo com o diabetes tipo 1 desde 1991, passando por diálise peritoneal e por um transplante renal, entendi que o tratamento vai muito além das doses de insulina. A gente precisa de gente,a gente precisa ser enxergada.

Ao longo da minha trajetória, acompanhei de perto o trabalho de diferentes associações e a evolução da saúde pública no Brasil. As associações de diabetes são ONGs sem fins lucrativos que dependem quase exclusivamente de doações, eventos e taxas de associados para manter as portas abertas. A presença ou a falta desse apoio comunitário muda completamente a nossa história.

O acolhimento na infância (Itabuna - BA)

Na minha infância, a Associação dos Diabéticos de Itabuna foi um verdadeiro porto seguro. Naquela época, eu me sentia invisível e profundamente sozinha. Foi lá que encontrei informação, acolhimento e pessoas que me enxergavam de verdade. 

O que eu mais amava nas associações eram as reuniões em datas especiais. Tinha sempre muita coisa gostosa, um carinho na mesa que a gente não via em hospital nenhum. Em Itabuna tenho as minhas melhores lembranças, daquele sentimento de família. Em Barbacena, lembro com carinho das ações de novembro, mês do diabetes.

Como essas instituições sobrevivem de doações e trabalho voluntário até hoje, saber que recentemente muitas associações pelo Brasil têm passado por graves dificuldades financeiras e quase fecharam por falta de apoio corta o coração. Elas transformam vidas desde a infância.

Como apoiar: Se você é da região ou quer ajudar o trabalho lindo da ASDITA a continuar de portas abertas, entre em contato diretamente com a instituição ou faça uma doação para manter os projetos sociais ativos.

A realidade dos anos 90 e a era pré farmácia popular (Barbacena - MG)

Em Barbacena, vivi uma experiência marcante no final dos anos 90, entre 1995 e 1997. Naquela época, a realidade era muito diferente de hoje: não existia a Farmácia Popular e a lei que garante insumos pelo SUS ainda não estava em vigor como conhecemos hoje. Lembro que as associações eram a única porta para conseguir insulina e, para se manterem, dependiam das mensalidades dos associados para arcar com custos e profissionais. Eu era muito jovem e me sentia constrangida pelas cobranças quando atrasava a mensalidade,hoje compreendo, elas estavam sobrevivendo com muita coragem num tempo de muita escassez pública. Essa experiência me mostrou como o acesso à saúde precisa ser leve e humanizado.

O vazio da falta de especialistas e as barreiras regionais (Ouro Branco e região)

Anos mais tarde, ao chegar em Ouro Branco, a realidade era de abandono: pesquisando  na net, descobri que na cidade já teve a antiga associação de diabéticos de Ouro Branco (ADOB) mas foi extinta. Não me lembro ao certo onde buscava os insumos no início, provavelmente em algum posto de saúde. Ter consulta com endocrinologista era quase impossível; só consegui consulta especializada anos depois, com plano de saúde.

Buscando alternativa perto de casa, tentei me cadastrar na associação de uma cidade vizinha, em Conselheiro Lafaiete.(ASSODILAFA). Na época, fui informada de que o atendimento era restrito a moradores locais por regras da própria instituição. Na mesma época, fiquei sabendo que o atendimento com especialista do SUS na minha cidade havia sido interrompido. Ficar nesse "limbo" regional, sem especialista no SUS e sem acesso à associação vizinha por conta de comprovante de endereço, mostra como a burocracia ainda machuca quem só precisa de cuidado.

O papel do nosso cantinho

Ver essa trajetória das associações que acolhem até as barreiras da saúde pública me fez entender o verdadeiro propósito deste espaço.

O blog é o meu ponto de encontro como mulher, mãe e artesã no meu Ateliê Cantinho da Cris. Se faltam portas abertas na saúde física da nossa região, a internet precisa cumprir o papel de abraçar, informar e lembrar: você não está sozinha nessa caminhada.

Todas essas associações fazem um trabalho incrível, muitas vezes com voluntários e com pouquíssimo recurso. Se hoje temos Farmácia Popular e insumos no SUS, foi porque muita gente dessas associações lutou antes de nós.

Este texto é um relato de memória pessoal da minha caminhada entre 1991 até hoje, e reflete como eu vivi cada fase.

E na sua cidade, como é o acesso aos especialistas e insumos? Você já enfrentou barreiras parecidas? Deixe seu relato nos comentários!




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Receita caseira de sorvete diet

 Olá pessoal! Eu faço contagem de carboidratos mas sempre que posso eu mesma faço minhas receitinhas em casa na versão diet. Procurando aqui na net, achei essa receita de sorvete.  Primeiro fiz na versão original.  Ficou uma delícia, todos aqui em cada aprovaram, e depois fiz na versão diet, substituindo o açúcar por adoçante em pó Tal & Qual. O leite condensado eu mesma fiz na versão diet. Segue a receita do leite condensado diet e depois do sorvete! Dica: a receita é de sorvete de morango, mas já fiz de chocolate. Basta substituir por achocolatado diet (2 colheres de sopa) ou cacau em pó sem açúcar (utilize 1 colher de chá, pois ele é mais forte). Para sabor creme basta adicionar 1 colher de chá de essência de baunilha e por aí vai! Achocolatad diet Gold imagem retirada da net Adoçante que utilizei imagem retirada da net Suco Fit morango zero açúcar foi o que utilizei Receita do leite condensado diet: Ingredientes: 1 xícara de chá(200ml) de l...

Sintomas de hipoglicemia com convulsão: o relato da pior crise que já enfrentei

Quem convive com o diabetes tipo 1 sabe que as quedas de açúcar no sangue fazem parte da rotina. Eu já tive várias crises de hipoglicemia: com desmaio, convulsão, espasmos, gritos, choro e até o corpo paralisar. Mais de uma vez, apaguei na cama de casa e acordei no pronto-socorro, toda furada de agulhas, sem lembrar absolutamente de nada do que tinha acontecido. Mas houve uma vez em especial, há alguns anos, que assustou tanto o meu marido que ele achou que eu iria morrer. Hoje, decidi contar como tudo aconteceu para servir de alerta. A caminhada que "queimou" a glicose Lembro que eu tinha andado muito naquele dia. Estava acontecendo a festa de Santo Antônio no centro da minha cidade e, na época, eu morava em um bairro relativamente próximo. Foram 30 minutos de caminhada para ir e mais 30 para voltar. Essa caminhada "queimou" bastante glicose. Na festa, comemos cachorro-quente e, ao chegar em casa, cansada, cometi dois erros que quase me custaram a vida: não tive o ...

FreeStyle Libre-Post atualizado

Olá pessoal! Tudo bem com vocês?Antes do Libre ser lançado no Brasil, eu fiz um post que vocês podem conferir nesse link:  FreeStyle Libre . Hoje vou falar mais um pouco de como ele funciona, de como e onde comprar. O Libre é um sensor da Abbott . O leitor do Libre mostra os dados da glicose coletados pelo sensor. A leitura é rápida,apenas 1 segundo mostra os dados da glicemia das últimas 8 horas e uma seta de tendência mostrando se a glicose está subindo ou baixando ou mudando lentamente. O leitor do Libre também é um glicosímetro, eles funciona com as fitas FreeStyle Optium. O sensor pode usado na piscina, praia ou rio até 30 minutos,mais é necessário proteger com uma fita tipo a Tegaderm. Ele tem uma memória que guarda os valores até 90 dias. É possível transferir os dados armazenados do leitor para um computador, para poder analisar melhor os dados,mais é precisar baixar um software disponível no site do FreeStyle Libre. A venda dos sensores é feita pelo site da Abbott...