Quem me acompanha por aqui sabe que eu adoro compartilhar os bastidores reais da minha rotina: a maternidade, meus bordados e costuras, os altos e baixos da bomba de insulina com o Diabetes Tipo 1, e, mais recentemente, tudo o que vivi nos quase cinco anos de diálise peritoneal até o meu tão sonhado transplante renal em maio.
Mas hoje quero contar uma história que por muito tempo me deu até um pouco de vergonha.
Antes do meu transplante, eu desenvolvi uma mania inexplicável, uma necessidade quase incontrolável de cheirar... sabonete! E não era qualquer um, não! Tinha que ser especificamente o sabonete da marca Phebo. Eu passava o dia inteiro com aquele trem perto de mim cheirando.
Na época, confesso que guardei isso para mim. Ficava com medo de contar para o médico e ele achar que eu estava ficando louca ou que era só uma mania esquisita da minha cabeça.
Mas sabe o que é mais fascinante? Assim que fiz o transplante de rim, a vontade sumiu! Simplesmente desapareceu!
Fui pesquisar e entender a fundo com a medicina o motivo disso ter acontecido, e descobri que o nosso corpo é uma máquina perfeita e dá sinais impressionantes. Nada disso era "coisa da minha cabeça".
O que realmente estava acontecendo no meu corpo?
Existe uma explicação biológica linda (e assustadora!) para isso ter acontecido durante a diálise:
1. Alterações no Olfato e Anemia: Na insuficiência renal crônica, a anemia severa e a falta de ferro podem causar desejos e comportamentos sensoriais muito estranhos no nosso cérebro.
2. Toxinas no Sangue (Uremia): Como os rins não filtravam todas as toxinas, a ureia alta altera o paladar e o olfato. Na tentativa de neutralizar aquele mal-estar e o gosto metálico constante, o cérebro busca desesperadamente por aromas extremamente fortes, marcantes e frescos — como o perfume do Phebo.
(Nota curiosa: se a vontade fosse de COMER o sabonete, a medicina chamaria de Síndrome de Pica ou Alotriofagia! No meu caso, o cérebro se apegou no cheiro!)
Quando recebi meu rim novo, ele voltou a limpar meu sangue 24 horas por dia, corrigiu os hormônios da anemia e o equilíbrio do meu corpo foi restaurado. A necessidade de cheirar o sabonete foi embora!
Por que estou contando isso para vocês?
Se você passa por alguma doença crônica, faz diálise ou enfrenta um tratamento longo: nunca tenha vergonha dos sinais que o seu corpo te dá.
O que a gente às vezes acha que é "doidice" ou "frescura", na verdade é o nosso organismo gritando por socorro e usando os caminhos mais doidos que ele encontra para nos avisar que algo está fora do lugar.
Hoje eu olho para trás, vejo meu rim novo funcionando, dou risada lembrando do sabonete phebo. Mas, acima de tudo, sinto um orgulho enorme de ter escutado meu corpo e chegado até aqui!
Você na diálise, também teve vontade de cheirar ou comer algo estranho? Me conta aqui nos comentários, você não está sozibua.
Diário do recomeço
Como me sinto hoje: Aliviada por mais um passo dado. Agradeço por ter tecnologia e profissionais excelentes cuidando de mim.
O aprendizado da vez: Escutar o corpo é um ato de respeito a si mesma.
Uma vitória: Ter superado os 28 dias de tratamento para o CMV e já estar em processo de controle da gastroparesia.

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