Se tem uma coisa que muda radicalmente quando a gente sai da diálise e faz um transplante de rim, essa coisa é a nossa relação com a comida.
Durante os quase cinco anos em que fiz diálise peritoneal, o meu apetite era uma verdadeira montanha-russa — na maioria das vezes, morro abaixo. Eu simplesmente não conseguia comer direito. Coisas que eu sempre amei a vida toda, como aquele pão quentinho ou um bom café de manhã, perderam totalmente o sabor. Parecia que nada descia bem. Para conseguir comer algo com gosto, eram poucas exceções: uma pizza caseira (já que a comprada não podia por causa do fósforo) ou um lanche específico. Mas, no geral, a fome sumia.
Na época, a gente acha que é só cansaço do tratamento, mas a medicina explica o porquê disso acontecer:
As toxinas no sangue (uremia): Mesmo com a diálise fazendo o trabalho dela, o acúmulo de ureia no sangue altera nosso paladar e causa náuseas leves e constantes, tirando a vontade de comer.
O espaço na barriga: Na diálise peritoneal, o líquido no abdômen pressiona o estômago, dando aquela sensação de "estômago cheio" logo nas primeiras garfadas.
E aí veio o transplante em maio...
Desde que recebi meu novo rim, o meu apetite voltou com tudo! Aquele gosto amargo sumiu, o café voltou a ser uma delícia e o pão parece a melhor coisa do mundo. Consigo lanchar, comer bem e sentir o verdadeiro prazer de se alimentar.
É até engraçado, porque hoje tomo uma dose bem baixinha de prednisona (apenas 5 mg!), mas só o fato de o sangue estar limpo 24 horas por dia já faz o corpo "despertar" para a fome de novo.
O cuidado com essa nova fase
Voltar a ter fome e sentir o gosto das coisas é uma vitória libertadora, mas também exige carinho e atenção. Agora, com o rim novo funcionando, a bomba de insulina nova ajustando tudo e o paladar de volta, o segredo é aproveitar com equilíbrio. Comer o que faz bem, nutrir o corpo que lutou tanto e celebrar cada refeição como um presente!
Se você está na diálise hoje e sente que perdeu o prazer de comer: aguente firme. O seu corpo só está sobrecarregado, mas a sua capacidade de sentir o sabor da vida vai voltar!
Diário do recomeço
Como me sinto hoje: Grata por poder sentar à mesa, sentir o aroma do café e saborear minha refeição com alegria e sem enjoos.
O aprendizado da vez: Comer não é apenas se nutrir, é um ato de prazer e celebração da vida recuperada.
Uma vitória: Redescobrir o sabor dos pequenos alimentos do dia a dia e ver meu corpo se fortalecendo a cada refeição!

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