A história do diabetes (parte 2): a era do controle, das furadas de dedo e a minha memória com a glicofita
Depois do milagre da descoberta da insulina nos anos 1920, as décadas de 1970 a 2000 trouxeram avanços gigantescos na forma de aplicar a medicação e monitorar a glicose. Foi nesse período que a medicina começou a dar os primeiros passos para nos devolver o controle do dia a dia.
No segundo capítulo da nossa série, convido você a relembrar como era fazer esse controle antes da praticidade de hoje — uma viagem no tempo cheia de nostalgia, superação e lembranças de uma época em que o acesso era ainda mais difícil.
O controle do açúcar pela urina: Reagente de Benedict e Glicofita
Hoje estamos acostumados a olhar para o celular e ver o número exato da glicemia em tempo real. Mas durante muito tempo, a única forma de monitorar a taxa de açúcar era de forma indireta: avaliando a urina.
Quem viveu essa época se lembra bem das ferramentas que usávamos:
● O Reagente de Benedict: Um líquido azul que precisava ser misturado com algumas gotas de urina e aquecido (geralmente em banho-maria ou direto sobre uma chama/lâmpada). À medida que esquentava, a mistura mudava de cor: se ficasse azul, não havia açúcar na urina; se mudasse para verde, amarelo ou vermelho/tijolo, significava que a glicemia estava muito alta.
● A Glicofita: Fitas de papel reativo que eram mergulhadas na urina para comparar a alteração da cor com uma tabela impressa no frasco.
Além de não mostrarem o valor exato no sangue — apenas uma estimativa de poucas horas atrás —, essas medições traziam uma grande limitação: elas não detectavam a hipoglicemia. Se o açúcar estivesse perigosamente baixo, a fita simplesmente não mudava de cor.
A luta pelo acesso às fitinhas de sangue
Nos anos 1970 e 1980, surgiram os primeiros glicosímetros de ponta de dedo e as fitas de sangue. Pela primeira vez na história, era possível saber a glicemia exata no momento em que ela estava acontecendo!
No entanto, a realidade do acesso a essa tecnologia era duríssima. Os aparelhos e, principalmente, os frascos de fitinhas reativas de sangue tinham um custo altíssimo. Muitas de nós não tinham condições financeiras de comprar as fitas.
Era um misto de sentimentos: a emoção de ver a tecnologia existir, mas a dor de não ter condições de comprar ou continuar dependendo da glicofita na urina por falta de recursos. Lembrar disso traz nostalgia pelo caminho percorrido, mas também um aperto no peito por todas as dificuldades que enfrentamos.
A chegada das canetas e o início das bombas de infusão
Apesar dos desafios no monitoramento, a forma de aplicar insulina passou por uma revolução fantástica nesse período:
● Das seringas de vidro às canetas: As seringas pesadas deram lugar às canetas de insulina e agulhas bem mais finas e descartáveis. Isso trouxe uma praticidade e discrição imensas para aplicar na escola, no trabalho ou em locais públicos.
● Insulinas humanas e análogos: A ciência conseguiu sintetizar a insulina idêntica à produzida pelo corpo humano (NPH e Regular) e, mais tarde, os análogos de ação ultra-rápida e de longa duração.
● As primeiras bombas de infusão: Nos anos 1970, surgiram os primeiros modelos de bomba de insulina. No início, elas eram pesadas e pareciam mochilas, mas foram evoluindo rapidamente até se tornarem dispositivos pequenos e discretos.
O orgulho de ter chegado até aqui
Olhar para o Reagente de Benedict e para a Glicofita nos faz lembrar de onde viemos e do quanto fomos fortes. Quem passou por essa fase aprendeu a conhecer o próprio corpo "na raça", em uma época em que o acesso era restrito e tudo exigia um esforço multiplicado.
No próximo e último post da série, vamos falar do presente: a chegada dos sensores contínuos, a inteligência da bomba 780G e o futuro do controle do diabetes!
Diário do recomeço
O aprendizado da vez: Ter vivido a era da glicofita e ver a tecnologia de hoje me faz valorizar cada avanço do tratamento com muito mais profundidade.
A nossa história: Cada cicatriz nos dedos e cada frasco de reagente fervido fazem parte de uma trajetória de muita resiliência.
Você também usou a Glicofita ou o Reagente de Benedict na sua rotina? Lembra como foi a transição para as primeiras fitas de ponta de dedo? Me conta a sua história nos comentários!

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