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O que aprendi na diálise: ouvir o corpo e buscar informação

Quando enfrentamos uma doença crônica como a insuficiência renal, é natural entregarmos nossa confiança aos profissionais que cuidam de nós. Precisamos desse suporte para seguir em frente. No entanto, ao longo do período em que fiz diálise peritoneal, passei por um ciclo de intenso sofrimento que me ensinou uma lição preciosa: nós também precisamos ser participantes ativos do nosso tratamento.

Por um longo período, passei a enfrentar sintomas diários e extremamente severos. Minha pressão arterial despencava a níveis alarmantes, cheguei a um estado grave de desnutrição e convivia com um zumbido constante nos ouvidos. Chegava em casa apática, fraca e com episódios frequentes de desmaio. A situação se agravou a ponto de eu ter sido internada na UTI por três ocasiões, sem que houvesse melhora ou identificação da causa daquele agravamento naquele acompanhamento. A pouca urina que eu ainda conseguia produzir desapareceu completamente.

Na terceira internação, foi identificada cardiopatia hipertrófica obstrutiva, mas, na minha vivência como paciente, não houve o fechamento de um diagnóstico que explicasse todo o conjunto de sintomas que eu estava apresentando naquele período.

Na época, eu não entendia como tudo aquilo estava conectado. Hoje, revisando meu próprio histórico e conversando com a equipe médica após o transplante, compreendo como os fatores se relacionavam:

O aumento da furosemida e o zumbido: eu já usava esse diurético em dose pequena, mas ele foi sendo aumentado aos poucos na tentativa de aumentar a urina, algo que não aconteceu, pois o rim já não respondia. O diurético em doses altas acabou se acumulando no meu organismo, causando desidratação severa, queda de pressão e o zumbido no ouvido.

O alerta sobre a perda auditiva: foi o médico que me acompanhava na fila do transplante, em consultas anuais, quem me alertou que o uso de furosemida em doses altas sem necessidade poderia causar perda auditiva irreversível, além do zumbido, realizando a suspensão do remédio.

A suspensão da losartana: vivenciei também a suspensão da losartana, um medicamento contínuo que auxiliava na proteção do rim. Na minha experiência como paciente, a retirada dessa proteção acelerou a perda da minha estabilidade e da pouca urina que eu ainda tinha.

Por falta de informação e por receio de questionar as condutas, continuei seguindo aquele protocolo por muito tempo sem procurar outra avaliação, mesmo quando meu corpo dava todos os sinais de esgotamento.

Hoje, olhando para trás a partir da nova fase que vivo após o meu transplante renal, não guardo ressentimentos, mas sinto o dever de transformar essa dolorosa experiência em um alerta para quem está na diálise:

 1. Nunca normalize sintomas graves

Desmaios, prostração extrema, desnutrição, zumbido nos ouvidos e paralisação do volume urinário não são "efeitos normais" do tratamento. Na minha experiência, quando o quadro se agrava constantemente e não há melhora, é importante procurar ajuda em outro serviço imediatamente para uma segunda avaliação.

2. Entenda as alterações da sua medicação

Procure saber a função de cada comprimido que você toma. No meu caso, aprendi que aumentar doses de diuréticos quando o rim já não responde pode trazer sérios efeitos colaterais sem aumentar a urina. Se a dose de um remédio for alterada ou se uma medicação contínua for suspensa, peça esclarecimentos claros à sua equipe.

 3. Buscar uma segunda opinião é um direito vital

A medicina é ampla e possui diferentes abordagens. Buscar a consulta com outro especialista — como aconteceu quando o médico do transplante me alertou sobre a furosemida — não é falta de respeito; é um ato de preservação da sua própria vida.

 4. Mantenha seu histórico médico acessível

Guarde receitas, relatórios de internação e exames. Ter essa documentação organizada facilita o trabalho de novos médicos e garante a continuidade segura do cuidado.

A jornada de um paciente renal exige resiliência, mas a informação é uma das nossas melhores ferramentas de proteção. Hoje, felizmente vivendo uma nova fase após o transplante, compartilho este relato para que nenhum outro paciente passe pelo que passei em silêncio. Se o seu corpo está sinalizando que algo está errado, ouça-o e busque ajuda.

Nota: Este texto reflete exclusivamente a minha experiência pessoal como paciente, na minha percepção, e tem objetivo informativo e de conscientização. Não substitui a consulta ou a orientação médica individualizada, não orienta ajuste de dose de furosemida, losartana ou qualquer outra medicação. Qualquer dúvida sobre prescrição deve ser discutida diretamente com sua equipe de nefrologia.

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