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O dia que a vida recomeçou e os desafios para chegar até aqui

Um sentimento que tem me acompanhado muito neste pós-transplante é o do merecimento.

Às vezes, me pego perguntando se realmente mereço a chance de viver de novo. A diálise peritoneal foi o que me manteve viva, e sou imensamente grata por isso. Mas, no ano passado, passei por algumas intercorrências sérias e precisei ser internada três vezes.

Na minha cidade, a primeira internação foi assustadora. A equipe do hospital, em um primeiro momento, não soube como agir. Por não saberem como me conectar à máquina de diálise peritoneal, acabaram me colocando na UTI e iniciando uma hemodiálise de emergência. Meus exames só pioravam, e a melhora só veio quando voltei a fazer a diálise peritoneal, ainda dentro da UTI.

Lembro de tentar orientar as enfermeiras sobre o procedimento correto: como higienizar as bolsas e o cassete, a importância de usar máscara e de manter o ambiente isolado durante o processo. Mas parecia que eu falava outra língua. Pessoas entravam no quarto a todo momento, algumas profissionais esqueciam de lavar as mãos e teve quem quisesse usar luva de procedimento (o que não é permitido). Por sorte, não tive infecção.

Fui transferida para o quarto e, nessa etapa, me deixaram sozinha. Estar só acabou me ajudando a ter o controle para conectar as bolsas com segurança. Mesmo assim, por muitas vezes a enfermeira do turno entrava no quarto de surpresa... Felizmente, em nenhuma dessas vezes eu estava com o cateter exposto. Eu, ainda muito fraca, sentava, respirava fundo e, com muito custo, conseguia me conectar sozinha. Essa situação se repetiu em duas internações na minha cidade. Para piorar, a nefrologista local parecia totalmente perdida, chegando a me acusar de ter pegado peritonite — sendo que eu não estava com infecção alguma.

Os sintomas que me levavam ao hospital eram sempre os mesmos: um desânimo profundo, fraqueza extrema e falta de apetite. Chegou a um ponto em que eu mal conseguia forças para me conectar à diálise. Fazia o procedimento um dia sim, outro não, e minha saúde só piorava pelo acúmulo de toxinas no corpo.

Minha terceira internação mudou tudo. Fui para Belo Horizonte, em um hospital indicado pela minha clínica de diálise. Os sintomas eram os mesmos, mas com um agravante: eu havia começado a desmaiar.

Em BH, encontrei um hospital super preparado para me receber. Todas as noites, um enfermeiro da minha própria clínica de diálise ia até lá para me conectar na máquina e voltava pela manhã para me desconectar. Foi tudo muito tranquilo. Ali, através de vários exames e com o olhar de médicos preparados, finalmente descobriram a causa dos desmaios: cardiopatia hipertrófica obstrutiva. Eles entraram com a medicação correta e eu nunca mais desmaiei.

Os médicos de BH não fecharam um diagnóstico definitivo para todas as intercorrências do ano passado, mas me deram o que eu mais precisava: segurança. Ainda preciso de acompanhamento com o cardiologista de lá, mas esse processo está em pausa no momento, até que eu me recupere totalmente do transplante.

Hoje, olhando para trás e vendo tudo o que passei para chegar até aqui, tento acolher esse sentimento de merecimento. Sim, eu mereço estar aqui. Eu mereço esse rim novo, mereço essa nova chance e mereço viver cada segundo dessa vitória.




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