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A vida no "Novo Normal": entre despertadores, máscaras e um copo d'água com sabor de liberdade

Se alguém me dissesse há um tempo atrás que a felicidade teria cheiro de produtos de limpeza e som de despertador, eu provavelmente não entenderia. Mas a realidade do pós-transplante é exatamente essa: uma mistura curiosa de uma liberdade imensa com um cuidado minucioso, quase artesanal.

Estou em casa, finalmente. E hoje quero contar para vocês como são os meus dias por aqui.

Meu celular agora é o meu melhor amigo — e o meu maior "cobrador". Ele vive despertando. É o lembrete do remédio das 6h, 8h, 9h, das 13h, 15h,  os da noite... cada alarme é um compromisso inegociável com a vida que eu recebi.

E, entre um despertador e outro, a rotina de quem cuida: minhas filhas e meu marido viraram verdadeiros guardiões. Eles preparam minhas refeições com um zelo, tudo seguindo o protocolo rigoroso de higienização. Ver o meu marido cozinhando de máscara, focado em cada detalhe para que tudo esteja perfeito e seguro para mim, é uma prova de amor que não cabe em legenda.

Vocês não fazem ideia do prazer que é beber água. Por muito tempo, cada gole foi medido e controlado. Hoje, ter a liberdade de beber água — mesmo com esse frio intenso que faz aqui — é um dos maiores símbolos da minha vitória. É hidratar o corpo, é fazer o "novo morador" trabalhar, é sentir que estou viva.

Sim, aqui em casa estamos todos de máscara, o tempo todo. A nossa casa virou uma espécie de "fortaleza". A limpeza é constante, uma faxina que nunca termina, mas que fazemos com alegria, porque ela é a barreira que me protege enquanto meu sistema imunológico ainda está aprendendo a lidar com o mundo.

Mas nem tudo é calmaria. Confesso: o dia de ir para BH para as consultas semanais me dá um frio na barriga. O hospital é o lugar onde recebi a vida, mas sair da nossa "bolha" de proteção, enfrentar a estrada e o ambiente clínico me traz um medo natural. O medo do vírus, da bactéria, de qualquer ameaça externa.

Preparar a mochila, conferir a máscara, o álcool em gel, a pastinha dos exames... será um ritual de coragem que repitirei toda semana. É o preço do recomeço, e eu pago com a maior gratidão do mundo.

Estamos enfrentando esse frio, essa rotina de despertadores e essa vigilância constante com um sorriso no rosto. Porque, apesar de todo o cuidado, eu não estou mais presa à máquina. Eu estou aqui, viva, sendo cuidada com tanto amor que, às vezes, sinto que esse transplante não curou só o meu rim; ele renovou a nossa união como família.

Seguimos firmes. Um dia de cada vez, um remédio por vez, um gole de água de cada vez. 

#VidaDeTransplantada #PósTransplante #Renascimento #Gratidão #Família #Cuidados #Superação





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