Se você me acompanha por aqui, sabe que a jornada da doença renal crônica é feita de altos e baixos, de dias de muita força e outros de puro cansaço. Mas hoje, escrevo este texto de um lugar diferente. Escrevo direto de uma cama de hospital, com o bip dos monitores ao fundo, alguns acessos nos braços e um coração que mal consegue processar o tamanho de tudo o que aconteceu nas últimas horas: eu fiz o meu transplante renal.
Ainda estou internada, vivendo o turbilhão que são os primeiros dias do pós-operatório. E, justamente por estar aqui, com as emoções à flor da pele, senti a necessidade de registrar este momento.
A gente passa meses, às vezes anos, esperando por uma ligação. Criamos cenários na mente, ensaiamos a reação, mas quando o telefone finalmente toca dizendo "tem um órgão para você", o chão parece sumir e reaparecer mais firme ao mesmo tempo. É um misto de medo do desconhecido com uma urgência absurda de viver.
Chegar ao hospital, passar pela preparação e entrar na sala de cirurgia é uma experiência que muda a nossa perspectiva sobre tudo.
Quero ser muito honesta com vocês, porque o meu objetivo aqui sempre foi mostrar a realidade. O transplante não é uma cura mágica que te faz acordar correndo e pulando. Ele é um tratamento de substituição renal.
E os primeiros dias aqui na internação são desafiadores. Tem dor, tem o incômodo dos drenos, a boca seca, a rotina exaustiva de exames de sangue a cada poucas horas e aquela ansiedade boa (e às vezes assustadora) de ver os exames mostrarem que o novo rim está acordando e começando a trabalhar.
Cada mililitro de urina comemorado pela equipe médica vira uma vitória de Copa do Mundo no quarto do hospital. A gente reaprende a celebrar as pequenas coisas.
É impossível estar deitada nesta cama e não pensar, a cada minuto, na pessoa que partiu e na família que, no meio da dor mais profunda da perda, disse "SIM" para a doação de órgãos.
Eu não conheço o rosto deles, não sei os seus nomes, mas carrego comigo uma parte desse amor e dessa generosidade. Prometo honrar esse presente todos os dias da minha vida, cuidando desse rim como o tesouro mais precioso que já recebi.
A jornada está apenas começando. Sei que quando receber alta, a rotina mudará: serão muitos remédios imunossupressores com horários rigorosos, restrições alimentares severas no início, cuidados redobrados com infecções e consultas frequentes. Minha condição de PcD continua, os cuidados contínuos continuam... mas a liberdade de sonhar com o futuro voltou.
Ainda passarei mais alguns dias por aqui no hospital, ajustando as medicações e garantindo que tudo esteja seguro para eu ir para casa.
Obrigada a cada um de vocês pelas mensagens, orações e energias positivas. Eu sinto esse carinho chegar até aqui no quarto.
*Um dia de cada vez. Com dores, com paciência, mas com um rim novinho e uma vontade gigante de viver.*
16 de Maio de 2026
Dia do meu sim!
Doe órgãos!
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